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terça-feira, 27 de abril de 2010

purity

encontro a minha pureza nas coisas,
nos lugares onde a escondi há muitos anos.
fico silenciosa nas esquinas dos meus espaços
de olhos vazios e quietos,
o meu nervosismo demonstra-se apenas
nos meus dedos brancos e retorcidos.


encontro a minha inocência em mim,
ao chorar com os pardais que antes do nascer do sol
já andam perdidos entre os candeeiros de rua.

encontro-me nos meus joelhos esfolados
na tijoleira do templo.
junto as mãos e peço
aos deuses que ainda lá estão.

sei que tenho medo quando as minhas mãos tremem.
a emoção não reconheço em mim.

escondi os meus segredos de infância
em caixinhas cujos esconderijos esqueci.
às vezes tropeço nelas ao calha,
encontro música no meu porta-chaves
uma canção na luz entre as folhas
e no cabelo dela, como dança no luar --

-- lembro-me daquilo que sonhei
e afogo-me nisso.
é melhor assim, quando as estrelas
são apenas as recordações que tive
de um dia me recordar de estrelas.

--
gosto mais deste do que as outras pessoas gostam.

domingo, 25 de abril de 2010

as nossas mãos

a nossa cultura existe
nas nossas mãos
de onde crescem as flores mais belas
e as revoluções mais sangrentas.

a nossa cultura existe
nas nossas mãos,
que colectivas cobrem
os rostos de gerações
ao choverem as bombas e as espadas.

a nossa cultura existe
nas nossas mãos,
que colectivas seguram
nos pincéis das eras.

a nossa cultura existe
nas nossas mãos,
que arranham as paredes da nossa prisão
e seguram os nossos garfos cheios,
os volantes dos nossos camiões
e ficam estendidas no chão [imóveis].

as nossas mãos
estendem-se para se tocarem.
a noite não permitirá
que se aproximem demasiado.

tu sabes que viste
(e lembras nas linhas das palmas)
o céu nocturno a erguer-se em chamas,
em centenas de gerações destruídas.

sábado, 24 de abril de 2010

experi-mental

as ruas desta cidade
acolhem-nos como se fôssemos os seus filhos.
já conhecem as solas dos nossos sapatos
como nós não as conhecemos.
os néons dos restaurantes chovem
teorias electroquímicas
em reflexos no teu cabelo.

vês como podemos voltar,
marília?

[[ cities are strange disconnected places
where everything is connected. ]]

as histórias começam em lugares como estes
os nossos dedos encontram-se e separam-se
no espaço que nos divide.

vê levantar-se o sol no ocidente
onde nunca ninguém o viu
por entre as luzes dos semáforos e
as chaminés das fábricas e
os holofotes das discotecas e
sentes isso em ti, marília,
sentes como podemos voltar, marília,
sentes como podemos
estar aqui de novo
juntos
mão na mão
olhos nos olhos?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

torres

inspirado por este post no Cogito Ego Sum.

--
o esquecimento parece ser a única forma
de respeitar as nossas memórias.
as fachadas dos edifícios e as ruas calcetadas
dissolvem-se umas nas outras,
tornam-se mais vagas e, ao mesmo tempo,
crescentemente belas.

a simplificação do mundo surge
como uma necessidade,
um pretexto para nos sentirmos muito melhores,
como se fôssemos mais humanos
por transformarmos aquilo que vemos
à luz da nossa perspectiva inovadora
e, em muitos sentidos, absolutamente aterrorizada.

nos viadutos sobre as nossas cabeças
e nos túneis debaixo dos nossos pés,
a apologia da velocidade,
um grito futurista de libertação detestável de tudo o que foi
princípio ético duradouro através das eras.

rodopiam todos ao redor das nossas cabeças,
os rápidos, os fortes, os altos,
a torre de babel de um novo mundo, cada vez mais gigante,
a tentar meter mais espaço
entre os pés e o chão,
a torre sears, as torres petronas, e mesmo o world--
o world trade--
o world trade center.

tratamos com respeito
as nossas recordações individuais e colectivas
com o esquecimento gradual de perder o medo
ao metropolitano e aos aviões
e escondemos o terror dentro de nós
onde só nós podemos vê-lo,
assim vale menos.

damos as mãos na escuridão porque
uma ilusão da PIDE nos persegue ainda
com as mãos postas nos olhos a fazer de binóculos
à procura dos mais ferozes violadores e das mentes mais perversas
para prender para guardar a inocência do estado.

inocente, o estado
sentou-se ao cimo da torre vasco da gama
a ver e a chorar
o terror que tem por dentro.

sábado, 14 de novembro de 2009

a era moderna

a era moderna é pouco poética
cheia de ruídos artificiais.
as noites tão brilhantes como os dias
os dias tão fechados como as noites.

de uns para os outros trocamos olhares calados,
tímidos, desviados, atravessados por entre
a multidão fervilhante no metro.

folheamos revistas de páginas magras
no consultório do dentista onde
nos esquecemos das dores psicológicas.

rebolamos nas passagens de peões,
zebradas através do asfalto quente,
perigosas à sua maneira muito própria.

rostos vazios detêm-se nas montras
de cores vibrantes em vidas a preto e branco
sem os olhos brilhantes da audrey no sabrina.

'sonha,' pedem os semáforos, piscando,
'sonha por favor, enquanto o vento se lançar
em voos rasantes pelos teus cabelos.'

há muitas coisas que partilhamos
com os nossos antepassados
que ultrapassam o plástico e o aço inoxidável.

os dedos das nossas mãos industriosas
os passos lentos de quem não tem destino
os sonhos escondidos atrás da orelha
e o vento
lançado
em voos rasantes pelos nossos cabelos.

pára de sofrer

pára de sofrer, sofia,
deixa-te de ler os clássicos
que terminam sempre em morte ou casamento
(ambos tristes à sua maneira
muito particular e igualmente
trágicos e finalizadores).

abre bem os olhos, sofia,
enche-os de coisas bonitas
como os pássaros e as borboletas
e esconde na noite as sombras
que te apoquentam a alma
ao acordares.

deixa os pesadelos no armário
onde escondes os teus outros segredos
(um diário com fechadura de plástico,
uma cassete do pretty woman
e os restos mortais de uma folha vermelha)
e não te esqueças de fechar a porta
à noite antes de dormir.

faz pouco barulho, sofia,
para não acordares os teus demónios.
quando eras pequenina e eles estendiam
garras fantasmagóricas sobre ti,
os lençóis brancos eram o teu escudo
glorioso e ardente.
mas agora, enrolada,
abraçando silenciosamente os joelhos,
nenhum edredão te protege
dos teus fantasmas muito pessoais
(enroscados contigo na cama,
com os braços frios passados
sobre o teu corpo esguio).

deixa de sofrer, sofia,
a noite não dura para sempre
nem pode assombrar as horas de luz.
esconde-te enquanto for dia
nos raios de sol nos parapeitos das janelas
(podes aprender a estender-te
com os gatos, que o fazem bem)
e ao cair a noite vai andando para leste
à velocidade da rotação da terra
(mil quilómetros por hora no equador)
e o pôr-do-sol nunca te vai apanhar.

escondes-te assim daquilo
que te persegue das sombras,
um bom conselho mas covarde.

a melhor opção, sofia,
é parares de sofrer não fugindo
mas travando e deixando
que os teus males te atravessem
como atravessa os teus ossos
o vento gelado do evereste.

fica quieta, sofia, e repousa,
a sarar as feridas mas deixando-as doer
pois essa dor verdadeira nunca será tão grande
como a dor de esperar que a dor nos atinja
num relâmpago inesperado.
a verdadeira dor é sempre menor
do que a expectativa de uma dor imaginária
coberta de sal e de pedaços de areia
em feridas que nunca realmente abrimos.

por isso esquece, sofia, esquece.
é a única maneira
de realmente perdoar.
mete as unhas postiças
e vai dançar pela noite fora,
deixa a penumbra dos candeeiros de rua
guiar os teus passos
até casa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

iii. o jordão

retirámos a bagagem
das águas tortuosas do estuário.
refugiados,
de fotografia dobrada
no bolso do casaco.


erguemos os olhos para diante
como se o sol nascesse já
(é cedo ainda)
bem no centro do oriente.


as pontes desta cidade
acolhem-nos com delicadeza,
lançadas sobre as águas
num apaziguante suspiro.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

juízos de valor

despe-me porque te pertenço,
procura em mim os meus segredos,
também são teus agora.

sem entraves, existimos apenas,
num lugar onde existir equivale a estar vivo,
sem as partes mais misteriosas e complicadas.

as coisas crescem de nós
como crescem das árvores,
somos criadores de braços bem abertos
para abraçar as coisas mais longínquas,
todas elas nos pertencem
como pertencemos nós a elas.

deixa-me guardar-te em mim
onde sei que posso proteger-te.
fiquemos de pernas entrelaçadas
num local obscuro e preenchido,
onde o espaço vazio não sirva
de ameaça sossegada e deslizante.

esqueço-me de que passam
as noites e os dias,
as estações escorregando
por entre os meus dedos.
com as folhas vermelhas de outubro
ainda entrelaçadas no meu cabelo,
apercebo-me das flores de abril
despontando aos meus pés.

esfrego os olhos com mãos sombrias,
here comes the sun.

noctívagos

a noite, como a tempestade,
colapsa:
manto escuro que lançamos sobre os ombros.

a nossa tradição é silenciosa
os nossos espíritos calados
em reverência a outros espíritos.

como buracos queimados através
do tecido espesso do céu
as estrelas ardem.

à volta da fogueira, esperamos,
toda uma raça em expectativa,
décadas de sonhos.

de rostos fechados, anacrónicos,
partilhamos os nossos pensamentos
com os pássaros apenas.

às vezes esquecemos que os pássaros
não migram para esquecerem onde estão
mas para recordar
os sítios que deixaram.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

the modern way

and so he sits on his roaring motorcycle
driving backwards on one-way streets
waking up old women and children.

he's a modern day atilla,
fist raised in a salute to the gods of audacity.

he's free like a phoenix, with all the colours
of all the flags of all the WORLD
splattered on his wings.

he's immortal like a phoenix, constantly
kicking off the ash at the tip of his
blazing red cigarrette, unafraid.

and he turns the handles and throws his hair
in roaring gushes of liberating wind,
like the world will never be the same after this,
not once he's burned his trail across
sunrises and sunsets and trains going
places and airplanes going
nowhere and endless pointless soundless
traffic jams and the silent eyes of
children when their houses burn in the
deserts of sudan and briefcases of brokers
headed for straight-out smack dab
suicide.

when he leaves
cigarrettes are put out
on the asphalt of the road.

and he never thinks about
anything at all.


--
Em inglês porque algumas coisas não funcionam nas duas línguas.
Inspirado por posts sábias em
mmmleaf, e pelos universitários que percorrem a rua em motas ruidosas às tantas da manhã.

terça-feira, 23 de junho de 2009

carthaginiens, ensis

escrevo-lhe um poema como
consagraria aos deuses
um sacrifício em chamas,
e pelas mesmas razões.

burnbaby obrigada pelo que me dás
burn estrelas pulverizadas
burn nas minhas mãos
burnbaby não me abandones
burn vê o sol como ele sobe
burn entre as garras das nuvens

burnbaby concede-me este único
burnbaby e inquebrável desejo
burn outros virão com a maré
burn amanhã de manhã


bu os cartagineses não escreviam poemas.
rn só as sinfonias de escudo-em-espada-em-escudo
bu nas praias infinitas do mediterrâneo

e

cartago caiu com um
ruído surdo ensurdecedor
das páginas da história
para o chão empoeirado,
os gritos silenciados
levados pelo fumo
até às divindades.

burnbaby they were a-watchin
bvrnbaby the show

eu vi com estes olhos
dançar as espirais de chamas
sobre os telhados em ruínas.

burn nenhum deus levantou
burnbaby um omnipotente dedo.

escrevo-lhe um poema
para que o apazigue
para que o meu mundo
não caia em cinzas brancas
de folha de papel.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Nero

arde,
o teu fumo enche-me as narinas
faz-me sentir vivo--
quase como se eu estivesse
mesmo.


uma vez eu vi um pássaro
cair em chamas
do meio de uma tempestade.

nada mais belo desde aí.

fico em silêncio junto às janelas
à espera da pilhagem,
da calamidade que venha fazer
cair toda esta história e
livros-escravos-mãos-recordações
em cinzas azuis na noite.

uma vez eu vi um vulcão
extinto e distinto no horizonte
(mas era mentira, e se eu soubesse
tinha ficado para ver)

os imperadores viram bem crescer
um império debaixo das sandálias
--gerações e gerações de ensinamentos
de línguas estrangeiras e modas e moedas
e emoções e romances com mulheres
de pele escura e de outros
mais exóticos continentes--
e eu sei ver agora tudo isso
desmoronar-se aos meus pés
em menos de quinze segundos.

e tudo aquilo de que preciso
é uma
faísca.

--
Reza a lenda que o Imperador Nero tocou cítara enquanto Roma ardia, após lhe ter ateado fogo.
Não é perturbadoramente belo?

Música: "Dear Darkness", PJ Harvey

segunda-feira, 27 de abril de 2009

nós os artistas II

nós os artistas sentimos com mais força
do que as outras pessoas sentem

nós os artistas queremos a liberdade
com mais força do que os outros, mais

nós os artistas gritamos mais alto
ou então sussurramos palavras de ordem
escondidas atrás dos pilares das eras
até à hora de brilharem além, porém, e
com mais força do que os outros, mais

nós os artistas não somos românticos
nem graciosos nem delicados
nem o nosso perfil é de cinzel
nem os nossos olhos pedras
( semi-preciosas metafórico-voltaicas )

o nosso silêncio é apenas aparente
nós os artistas não sabemos fechar a boca

sem ar respiramos pelos olhos quando
nos sufocam em desespero porque
o artista é LIVRE e INSPIRADO
e a sociedade PRESA e INVEJOSA

OS NOSSOS OLHOS SÃO GRANDES
AS NOSSAS MÃOS SÃO ABERTAS
OS NOSSOS PÉS CALEJADOS

o sol é dos artistas porque só eles
sabem para que é que ele serve


--
Poema velho redescoberto, com um sujeito poético revoltadíssimo.
Devia estar a ter um daqueles dias difíceis.

esquecido no tempo a 05-04-2008

Música: "Kashmere", Led Zeppelin

segunda-feira, 9 de março de 2009

emportée par la foule

quando ouço a nossa canção
passam borboletas na minha
visão periférica.

ainda somos deuses
-sabe deus por quanto tempo
essa brincadeira vai durar-
com as oportunidades
do céu azul na palma da mão.

às vezes estou sozinha como
a solitária senhora parisiense
na linha do céu nova iorquino:
presa tão longe de casa,
numa antítese ao seu apelido.

abrem-se-me os olhos
com as ventanias.
são as janelas de uma casa
mais antiga do que eu,
com as portadas amarelas.

os aviões quando voam
não batem as asas.
são de outro estado de
existência - podem voar
por pura força de vontade.

quando ouço a nossa canção
os meus dias são diferentes.
vejo os teus olhos (de súbito)
como se os visse do fundo
do poço das lembranças.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Teoria do Caos

por detrás dos meus olhos
tu és uma tempestade.
a tua luz breve e desenfreada
é seguida do rugido glorioso.


os pardais espalham-se pelo
céu noctuno,
pedaços recortados à escuridão.


por detrás dos meus olhos
--no mundo dos contrários,
condensação das lembranças--
os teus beijos são
no meu ombro.


as ondas atentam
em interminável onomatopeia
contra a praia vazia.


por detrás dos meus olhos
onde nada me alcança
tu tocas-me.
pestanas no meu rosto
(no ruge-ruge de uma porta
oleada);
mão na minha perna
(relâmpago--trovão);
unhas nas minhas costas
(a teoria do caos).


quando as borboletas batem as asas
acontecem coisas como
nós.


--
para o carlitos, (os heróis fazem-se assim), num dia como os outros (e vai daí...)

Canção -- "Lloyd, I'm Ready to Be Heartbroken," Camera Obscura