Mostrar mensagens com a etiqueta actualidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta actualidades. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

torres

inspirado por este post no Cogito Ego Sum.

--
o esquecimento parece ser a única forma
de respeitar as nossas memórias.
as fachadas dos edifícios e as ruas calcetadas
dissolvem-se umas nas outras,
tornam-se mais vagas e, ao mesmo tempo,
crescentemente belas.

a simplificação do mundo surge
como uma necessidade,
um pretexto para nos sentirmos muito melhores,
como se fôssemos mais humanos
por transformarmos aquilo que vemos
à luz da nossa perspectiva inovadora
e, em muitos sentidos, absolutamente aterrorizada.

nos viadutos sobre as nossas cabeças
e nos túneis debaixo dos nossos pés,
a apologia da velocidade,
um grito futurista de libertação detestável de tudo o que foi
princípio ético duradouro através das eras.

rodopiam todos ao redor das nossas cabeças,
os rápidos, os fortes, os altos,
a torre de babel de um novo mundo, cada vez mais gigante,
a tentar meter mais espaço
entre os pés e o chão,
a torre sears, as torres petronas, e mesmo o world--
o world trade--
o world trade center.

tratamos com respeito
as nossas recordações individuais e colectivas
com o esquecimento gradual de perder o medo
ao metropolitano e aos aviões
e escondemos o terror dentro de nós
onde só nós podemos vê-lo,
assim vale menos.

damos as mãos na escuridão porque
uma ilusão da PIDE nos persegue ainda
com as mãos postas nos olhos a fazer de binóculos
à procura dos mais ferozes violadores e das mentes mais perversas
para prender para guardar a inocência do estado.

inocente, o estado
sentou-se ao cimo da torre vasco da gama
a ver e a chorar
o terror que tem por dentro.

sábado, 14 de novembro de 2009

a era moderna

a era moderna é pouco poética
cheia de ruídos artificiais.
as noites tão brilhantes como os dias
os dias tão fechados como as noites.

de uns para os outros trocamos olhares calados,
tímidos, desviados, atravessados por entre
a multidão fervilhante no metro.

folheamos revistas de páginas magras
no consultório do dentista onde
nos esquecemos das dores psicológicas.

rebolamos nas passagens de peões,
zebradas através do asfalto quente,
perigosas à sua maneira muito própria.

rostos vazios detêm-se nas montras
de cores vibrantes em vidas a preto e branco
sem os olhos brilhantes da audrey no sabrina.

'sonha,' pedem os semáforos, piscando,
'sonha por favor, enquanto o vento se lançar
em voos rasantes pelos teus cabelos.'

há muitas coisas que partilhamos
com os nossos antepassados
que ultrapassam o plástico e o aço inoxidável.

os dedos das nossas mãos industriosas
os passos lentos de quem não tem destino
os sonhos escondidos atrás da orelha
e o vento
lançado
em voos rasantes pelos nossos cabelos.