retirámos a bagagem
das águas tortuosas do estuário.
refugiados,
de fotografia dobrada
no bolso do casaco.
erguemos os olhos para diante
como se o sol nascesse já
(é cedo ainda)
bem no centro do oriente.
as pontes desta cidade
acolhem-nos com delicadeza,
lançadas sobre as águas
num apaziguante suspiro.
sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
juízos de valor
despe-me porque te pertenço,
procura em mim os meus segredos,
também são teus agora.
sem entraves, existimos apenas,
num lugar onde existir equivale a estar vivo,
sem as partes mais misteriosas e complicadas.
as coisas crescem de nós
como crescem das árvores,
somos criadores de braços bem abertos
para abraçar as coisas mais longínquas,
todas elas nos pertencem
como pertencemos nós a elas.
deixa-me guardar-te em mim
onde sei que posso proteger-te.
fiquemos de pernas entrelaçadas
num local obscuro e preenchido,
onde o espaço vazio não sirva
de ameaça sossegada e deslizante.
esqueço-me de que passam
as noites e os dias,
as estações escorregando
por entre os meus dedos.
com as folhas vermelhas de outubro
ainda entrelaçadas no meu cabelo,
apercebo-me das flores de abril
despontando aos meus pés.
esfrego os olhos com mãos sombrias,
here comes the sun.
--
para o carlitos. nota-se?
procura em mim os meus segredos,
também são teus agora.
sem entraves, existimos apenas,
num lugar onde existir equivale a estar vivo,
sem as partes mais misteriosas e complicadas.
as coisas crescem de nós
como crescem das árvores,
somos criadores de braços bem abertos
para abraçar as coisas mais longínquas,
todas elas nos pertencem
como pertencemos nós a elas.
deixa-me guardar-te em mim
onde sei que posso proteger-te.
fiquemos de pernas entrelaçadas
num local obscuro e preenchido,
onde o espaço vazio não sirva
de ameaça sossegada e deslizante.
esqueço-me de que passam
as noites e os dias,
as estações escorregando
por entre os meus dedos.
com as folhas vermelhas de outubro
ainda entrelaçadas no meu cabelo,
apercebo-me das flores de abril
despontando aos meus pés.
esfrego os olhos com mãos sombrias,
here comes the sun.
--
para o carlitos. nota-se?
noctívagos
a noite, como a tempestade,
colapsa:
manto escuro que lançamos sobre os ombros.
a nossa tradição é silenciosa
os nossos espíritos calados
em reverência a outros espíritos.
como buracos queimados através
do tecido espesso do céu
as estrelas ardem.
à volta da fogueira, esperamos,
toda uma raça em expectativa,
décadas de sonhos.
de rostos fechados, anacrónicos,
partilhamos os nossos pensamentos
com os pássaros apenas.
às vezes esquecemos que os pássaros
não migram para esquecerem onde estão
mas para recordar
os sítios que deixaram.
colapsa:
manto escuro que lançamos sobre os ombros.
a nossa tradição é silenciosa
os nossos espíritos calados
em reverência a outros espíritos.
como buracos queimados através
do tecido espesso do céu
as estrelas ardem.
à volta da fogueira, esperamos,
toda uma raça em expectativa,
décadas de sonhos.
de rostos fechados, anacrónicos,
partilhamos os nossos pensamentos
com os pássaros apenas.
às vezes esquecemos que os pássaros
não migram para esquecerem onde estão
mas para recordar
os sítios que deixaram.
quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
escapatória
Passo depressa como se a noite nunca viesse cedo o suficiente, de mãos bem enterradas nos bolsos e os ombros rígidos contra o frio, as ruas geladas debaixo dos pés, uma após outra após outra. Se seguirmos durante tempo suficiente por uma rua, podemos ir até onde as ruas paralelas do mundo se unem num glorioso ponto de fuga. É sossegado, os outros que lá chegam também não querem falar com ninguém: é a única razão pela qual alguém andaria tanto tempo em linha recta sem parar para... para ficar.
Não quero ficar no mesmo sítio. Respiro para dentro do cachecol para aquecer os lábios e o pescoço, não quero que o meu sangue páre de correr mas ir para casa está fora de questão. Estou farto desta cidade em que todas as ruas vão dar ao mesmo sítio, e já as percorri a todas muitas vezes, a horas diferentes em diferentes alturas do ano, conheço-lhes bem as manias. Sei onde há pedrinhas manhosas, passeios tortos, candeeiros de rua esquizofrénicos, onde passam os passadores de droga e onde os artistas de graffiti perdem a cabeça às 4 da manhã a pintar as crianças esfomeadas de áfrica numa confusão de rabiscos. À noite, quando as ruas são minhas numa zona de sonho preenchida apenas por nevoeiro e pela minha silhueta escura, posso fingir que estou a ir para outro lugar. Quando está mesmo frio ando com as luvas mais grossas, com o cachecol até ao nariz e o gorro até às sobrancelhas, mas não fico em casa, porque ficar em casa seria desperdiçar a oportunidade maravilhosa concedida pelas nuvens, a oportunidade de pensar que vou para outro lugar.
--
"This is Love" - PJ Harvey
Não quero ficar no mesmo sítio. Respiro para dentro do cachecol para aquecer os lábios e o pescoço, não quero que o meu sangue páre de correr mas ir para casa está fora de questão. Estou farto desta cidade em que todas as ruas vão dar ao mesmo sítio, e já as percorri a todas muitas vezes, a horas diferentes em diferentes alturas do ano, conheço-lhes bem as manias. Sei onde há pedrinhas manhosas, passeios tortos, candeeiros de rua esquizofrénicos, onde passam os passadores de droga e onde os artistas de graffiti perdem a cabeça às 4 da manhã a pintar as crianças esfomeadas de áfrica numa confusão de rabiscos. À noite, quando as ruas são minhas numa zona de sonho preenchida apenas por nevoeiro e pela minha silhueta escura, posso fingir que estou a ir para outro lugar. Quando está mesmo frio ando com as luvas mais grossas, com o cachecol até ao nariz e o gorro até às sobrancelhas, mas não fico em casa, porque ficar em casa seria desperdiçar a oportunidade maravilhosa concedida pelas nuvens, a oportunidade de pensar que vou para outro lugar.
--
"This is Love" - PJ Harvey
a boneca
Balanceou as ancas pelas ruas poeirentas, por entre as ocasionais trocas de tiros e música de flautim, sacudiu o cabelo quando passava o vento para se poderem fazer bons grandes planos e abriu finalmente de par em par as portas de mola do saloon, deixando-as sacudir um pouco à sua passagem. Os rostos eram os mesmos de sempre – o Jack Rápido, cujas botas tinham umas asinhas secretas e invisíveis encomendadas a um índio; o Dick Gatilho, que tinha o par de pistolas mais obedientes ente Nova Orleães e a Califórnia; o Louie Sem Ossos, tão magro que fugia de qualquer prisão sem precisar de enganar o guarda ou de lhe raptar a chave do bolso. A Boneca lançou beijos a todos com uma boquinha repenicada e cumprimentou os quatro bandidos ao balcão com um gesto de cabeça, ao que eles tiraram os chapéus e sorriram.
Ao bilhar, porém, estava um desconhecido. De costas, ela via-lhe já o lenço vermelho ao pescoço, o colete de pele, as botas altas, tudo tirado do estereótipo do homem do fároeste. Ele olhou por cima do ombro e, retirando o cigarro dos lábios, disse:
- Boneca.
O coração saltou-lhe no peito, fez-lhe estremecer o decote, e as suas pestanas pestanejaram de forma mais epiléptica que sedutora.
- És tu – disse.
Ele manteve um semblante escuro, puxou o chapéu sobre o rosto para alargar a sombra que o cobria e, ignorando o terror que ela demonstrava, perguntou:
- Vai um bilhar?
A Boneca aproximou-se da mesa devagar, cada passo dela um estremecer do salto alto fininho das suas botas, modeladas a partir de um mapa da Itália. Tirou as luvas brancas com um ar determinado e agarrou no taco que o homem lhe entregava.
- O que estás aqui a fazer? – perguntou num sussurro.
Ele pareceu não reparar que ela fizera uma pergunta, estava ocupado a juntar as bolas todas num dos cantos da mesa para poder começar a partida.
- Ouviste? – voltou a Boneca.
Ele ergueu para ela um par de olhos escuros desde a penumbra da aba do chapéu e disse:
- Não fiquei surdo, Boneca, muito menos para ti.
Ela corou como se lhe tivessem aceso uma fogueira debaixo dos pés, e tirou o leque do cinto para se esconder atrás dele.
- Começamos? – voltou ele.
Com um ruído seco, as bolas espalharam-se pela mesa.
--
"A Boneca -- uma comédia romântica no fároeste"
dedicada à sara pelos anos dela
Ao bilhar, porém, estava um desconhecido. De costas, ela via-lhe já o lenço vermelho ao pescoço, o colete de pele, as botas altas, tudo tirado do estereótipo do homem do fároeste. Ele olhou por cima do ombro e, retirando o cigarro dos lábios, disse:
- Boneca.
O coração saltou-lhe no peito, fez-lhe estremecer o decote, e as suas pestanas pestanejaram de forma mais epiléptica que sedutora.
- És tu – disse.
Ele manteve um semblante escuro, puxou o chapéu sobre o rosto para alargar a sombra que o cobria e, ignorando o terror que ela demonstrava, perguntou:
- Vai um bilhar?
A Boneca aproximou-se da mesa devagar, cada passo dela um estremecer do salto alto fininho das suas botas, modeladas a partir de um mapa da Itália. Tirou as luvas brancas com um ar determinado e agarrou no taco que o homem lhe entregava.
- O que estás aqui a fazer? – perguntou num sussurro.
Ele pareceu não reparar que ela fizera uma pergunta, estava ocupado a juntar as bolas todas num dos cantos da mesa para poder começar a partida.
- Ouviste? – voltou a Boneca.
Ele ergueu para ela um par de olhos escuros desde a penumbra da aba do chapéu e disse:
- Não fiquei surdo, Boneca, muito menos para ti.
Ela corou como se lhe tivessem aceso uma fogueira debaixo dos pés, e tirou o leque do cinto para se esconder atrás dele.
- Começamos? – voltou ele.
Com um ruído seco, as bolas espalharam-se pela mesa.
--
"A Boneca -- uma comédia romântica no fároeste"
dedicada à sara pelos anos dela
domingo, 6 de Setembro de 2009
tendresse

"Ele também escaparia à sua ternura. Protegera-o, vigiara-o, acariciara-o, não para si própria, mas para esta noite que lho ia arrebatar, para angústias, lutas, vitórias, que ela desconheceria. Essas mãos carinhosas estavam apenas emprestadas, e o seu verdadeiro trabalho era obscuro. Conhecia o sorriso daquele homem, os seus cuidados de amante, mas ignorava quais as suas divinas cóleras no meio das tempestades. Prendia-o com doces amarras: música, amor, flores, mas ao soar a hora da partida as amarras quebravam-se, sem que por isso parecesse provocar-lhe o mínimo sofrimento."
~Antoine de Saint-Exupéry
"Vol de Nuit"
sábado, 29 de Agosto de 2009
a ponte romana
Foram homens que fizeram esta ponte, há muitos anos, com trapos por roupa e suor a marcar-lhes as testas, a escorrer pelas costas, a empapar-lhes as mãos. Foram homens como nós que puseram pedra sobre pedra destas pedras polidas que pisamos os dois.
E quando a ponte era nova, eles ficaram os dois, maltrapilhos e pequenos, sentados nesta amurada com os pés a criar círculos sobre o rio, e falaram das estrelas como tantas vezes outros falaram, antes e depois -- mas para eles era novo.
Rebentaram as invasões e os tambores de guerra a fazer vibrar as folhas nas árvores novas. Eles eram já outros e ela perseguia-o pela ponte e pedia 'não vás não vás não vás', e rezava e rezava e prendia laços de oração nos ramos das árvores encantadas, para o ver de novo e inteiro a atravessar aquela ponte.
Tão cedo ele não voltou, mas apenas quando ela era uma rapariga ruiva e as invasões tinham acabado e quem permanecia eram os invasores. Eles beijavam-se à noite às escondidas na ponte onde se derramara o sangue inimigo deles mesmos noutros tempos.
A cantar pelas montanhas chegaram os loucos, com espadas inclinadas e religiões novas que no fundo eram as mesmas, versões tortas, diferentes, angulares daquilo que eles conheciam. Viram-nos chegar pela ponte, atravessando o vale, e ouviram mais tambores e mais alto do que alguma vez tinham ouvido, tão fortes que, se parassem, iria com eles qualquer batimento cardíaco. Beijaram-se de novo, sem se esconderem, e ele enterrou-lhe as mãos no cabelo castanho escuro.
Aconteceu então outro mundo igualmente sangrento, de vingança e de raiva e de revolta e de tirar de novo o que é nosso, essas casas, esse povo e essa, essa ponte, seus sacanas, com as vossas vidas inclinadas tão erradas e tão falsas.
E ele construía então igrejas com outros homens de ombros largos, paredes bem grossas para que eles não voltem a entrar. Ela sentava-se na ponte, terrivelmente só, a sonhar com uma vida maior e a baloiçar os pés sobre a água cristalina.
Na idade seguinte eles eram um segredo de pecado em esquinas escuras da cidade e beijos roubados às ombreiras das portas. cruzavam-se na ponte e fingiam não se ver.
A era da luz não trouxe luz à terra deles, que tantas vezes os vira nascer e por vezes partir. Mas foi nessa era que, pela primeira vez, os dois casaram e criaram descendência -- a menina brincava na forja do pai com olhos brilhantes e os dedos todos cheios de calos, o menino, de nariz arrebitado, lavava com a mãe a roupa no rio, e os dois atravessavam a ponte às gargalhadas com espadas inclinadas de madeira.
Vieram buscá-lo para um barco do infante, ao que ele, sem opção, se ergueu da cama e só levou uma sacola com um par de ovos cozidos e carne fumada, e os bolsos cheios de beijos.
Ela criou os meninos sozinha.
No tempo dos românticos era de novo ela quem o perseguia pela ponte, e ele vestia de preto da cabeça aos pés e chorava muito como não choram os homens, e atirava com infinitas folhas de papel (tão brancas!) pelo ar e para o rio e para o vale e para o céu, no seu próprio grito de guerra desesperado que já tantas vezes o bairro tinha ouvido e esquecido.
As máquinas invadiram as ruas e os químicos invadiram o rio. Fez-se outra ponte maior, mais bonita e mais durável, feita de ferro para passarem as máquinas. Ele sonhava em voz alta delírios de loucura, enquanto ela lhe depositava panos brancos, na testa suada do homem que tinha feito a igreja.
As histórias de amor são assim complicadas, especialmente quando ele é tão livre dentro da sua cabeça e tão desesperado por liberdade do lado de fora. E quando partiu o rei (monarquia já de si bem falsa) ele dançou um bailado estrangeiro pela ponte fora com ela pelos braços, e o bairro todo olhou-o de lado durante meses.
Terminadas as festas, guerra.
E terminada a guerra, outra cortina de trevas e silêncio, o que não o impedia de ser ele e dizer coisas tabu. Ela escrevinhava no café por entre a fumarada dos charutos dos homens e sorria-lhe quando ele passava debaixo da sua janela, todo enfarruscado e com as mãos dos bolsos. Ainda assim atravessam a ponte sem darem as mãos.
Desta vez ele já partiu. Tentara empurrar a cortina mas falhara e ela voltara a ficar sozinha, para ver bem-sucedidos os objectivos dele num glorioso dia vermelho todo feito de flores. Passa na ponte com um cesto de roupa debaixo do braço e vê-o lá encostado, o cabelo penteado para o lado e a boina do pai lá plantada, a sorrir de lado como se fosse a primeira vez que a via. Ela lava a roupa na fonte com um sorriso também, e vê-o nos olhos dos filhos. Uma das meninas é ruiva, e ninguém entende porquê.
--
é um conceito que tenho na cabeça há muito tempo, e este resultado está longe de ser o final, mas decidi partilhar o estado actual do projecto, de qualquer forma.
bisoux*
E quando a ponte era nova, eles ficaram os dois, maltrapilhos e pequenos, sentados nesta amurada com os pés a criar círculos sobre o rio, e falaram das estrelas como tantas vezes outros falaram, antes e depois -- mas para eles era novo.
Rebentaram as invasões e os tambores de guerra a fazer vibrar as folhas nas árvores novas. Eles eram já outros e ela perseguia-o pela ponte e pedia 'não vás não vás não vás', e rezava e rezava e prendia laços de oração nos ramos das árvores encantadas, para o ver de novo e inteiro a atravessar aquela ponte.
Tão cedo ele não voltou, mas apenas quando ela era uma rapariga ruiva e as invasões tinham acabado e quem permanecia eram os invasores. Eles beijavam-se à noite às escondidas na ponte onde se derramara o sangue inimigo deles mesmos noutros tempos.
A cantar pelas montanhas chegaram os loucos, com espadas inclinadas e religiões novas que no fundo eram as mesmas, versões tortas, diferentes, angulares daquilo que eles conheciam. Viram-nos chegar pela ponte, atravessando o vale, e ouviram mais tambores e mais alto do que alguma vez tinham ouvido, tão fortes que, se parassem, iria com eles qualquer batimento cardíaco. Beijaram-se de novo, sem se esconderem, e ele enterrou-lhe as mãos no cabelo castanho escuro.
Aconteceu então outro mundo igualmente sangrento, de vingança e de raiva e de revolta e de tirar de novo o que é nosso, essas casas, esse povo e essa, essa ponte, seus sacanas, com as vossas vidas inclinadas tão erradas e tão falsas.
E ele construía então igrejas com outros homens de ombros largos, paredes bem grossas para que eles não voltem a entrar. Ela sentava-se na ponte, terrivelmente só, a sonhar com uma vida maior e a baloiçar os pés sobre a água cristalina.
Na idade seguinte eles eram um segredo de pecado em esquinas escuras da cidade e beijos roubados às ombreiras das portas. cruzavam-se na ponte e fingiam não se ver.
A era da luz não trouxe luz à terra deles, que tantas vezes os vira nascer e por vezes partir. Mas foi nessa era que, pela primeira vez, os dois casaram e criaram descendência -- a menina brincava na forja do pai com olhos brilhantes e os dedos todos cheios de calos, o menino, de nariz arrebitado, lavava com a mãe a roupa no rio, e os dois atravessavam a ponte às gargalhadas com espadas inclinadas de madeira.
Vieram buscá-lo para um barco do infante, ao que ele, sem opção, se ergueu da cama e só levou uma sacola com um par de ovos cozidos e carne fumada, e os bolsos cheios de beijos.
Ela criou os meninos sozinha.
No tempo dos românticos era de novo ela quem o perseguia pela ponte, e ele vestia de preto da cabeça aos pés e chorava muito como não choram os homens, e atirava com infinitas folhas de papel (tão brancas!) pelo ar e para o rio e para o vale e para o céu, no seu próprio grito de guerra desesperado que já tantas vezes o bairro tinha ouvido e esquecido.
As máquinas invadiram as ruas e os químicos invadiram o rio. Fez-se outra ponte maior, mais bonita e mais durável, feita de ferro para passarem as máquinas. Ele sonhava em voz alta delírios de loucura, enquanto ela lhe depositava panos brancos, na testa suada do homem que tinha feito a igreja.
As histórias de amor são assim complicadas, especialmente quando ele é tão livre dentro da sua cabeça e tão desesperado por liberdade do lado de fora. E quando partiu o rei (monarquia já de si bem falsa) ele dançou um bailado estrangeiro pela ponte fora com ela pelos braços, e o bairro todo olhou-o de lado durante meses.
Terminadas as festas, guerra.
E terminada a guerra, outra cortina de trevas e silêncio, o que não o impedia de ser ele e dizer coisas tabu. Ela escrevinhava no café por entre a fumarada dos charutos dos homens e sorria-lhe quando ele passava debaixo da sua janela, todo enfarruscado e com as mãos dos bolsos. Ainda assim atravessam a ponte sem darem as mãos.
Desta vez ele já partiu. Tentara empurrar a cortina mas falhara e ela voltara a ficar sozinha, para ver bem-sucedidos os objectivos dele num glorioso dia vermelho todo feito de flores. Passa na ponte com um cesto de roupa debaixo do braço e vê-o lá encostado, o cabelo penteado para o lado e a boina do pai lá plantada, a sorrir de lado como se fosse a primeira vez que a via. Ela lava a roupa na fonte com um sorriso também, e vê-o nos olhos dos filhos. Uma das meninas é ruiva, e ninguém entende porquê.
--
é um conceito que tenho na cabeça há muito tempo, e este resultado está longe de ser o final, mas decidi partilhar o estado actual do projecto, de qualquer forma.
bisoux*
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