terça-feira, 13 de outubro de 2009
juízos de valor
procura em mim os meus segredos,
também são teus agora.
sem entraves, existimos apenas,
num lugar onde existir equivale a estar vivo,
sem as partes mais misteriosas e complicadas.
as coisas crescem de nós
como crescem das árvores,
somos criadores de braços bem abertos
para abraçar as coisas mais longínquas,
todas elas nos pertencem
como pertencemos nós a elas.
deixa-me guardar-te em mim
onde sei que posso proteger-te.
fiquemos de pernas entrelaçadas
num local obscuro e preenchido,
onde o espaço vazio não sirva
de ameaça sossegada e deslizante.
esqueço-me de que passam
as noites e os dias,
as estações escorregando
por entre os meus dedos.
com as folhas vermelhas de outubro
ainda entrelaçadas no meu cabelo,
apercebo-me das flores de abril
despontando aos meus pés.
esfrego os olhos com mãos sombrias,
here comes the sun.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
a boneca
Ao bilhar, porém, estava um desconhecido. De costas, ela via-lhe já o lenço vermelho ao pescoço, o colete de pele, as botas altas, tudo tirado do estereótipo do homem do fároeste. Ele olhou por cima do ombro e, retirando o cigarro dos lábios, disse:
- Boneca.
O coração saltou-lhe no peito, fez-lhe estremecer o decote, e as suas pestanas pestanejaram de forma mais epiléptica que sedutora.
- És tu – disse.
Ele manteve um semblante escuro, puxou o chapéu sobre o rosto para alargar a sombra que o cobria e, ignorando o terror que ela demonstrava, perguntou:
- Vai um bilhar?
A Boneca aproximou-se da mesa devagar, cada passo dela um estremecer do salto alto fininho das suas botas, modeladas a partir de um mapa da Itália. Tirou as luvas brancas com um ar determinado e agarrou no taco que o homem lhe entregava.
- O que estás aqui a fazer? – perguntou num sussurro.
Ele pareceu não reparar que ela fizera uma pergunta, estava ocupado a juntar as bolas todas num dos cantos da mesa para poder começar a partida.
- Ouviste? – voltou a Boneca.
Ele ergueu para ela um par de olhos escuros desde a penumbra da aba do chapéu e disse:
- Não fiquei surdo, Boneca, muito menos para ti.
Ela corou como se lhe tivessem aceso uma fogueira debaixo dos pés, e tirou o leque do cinto para se esconder atrás dele.
- Começamos? – voltou ele.
Com um ruído seco, as bolas espalharam-se pela mesa.
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"A Boneca -- uma comédia romântica no fároeste"
dedicada à sara pelos anos dela
segunda-feira, 30 de março de 2009
Retrato de um Noir, Ruiva&Finale
A menina ruiva espia a viúva enquanto ela se vai sentar com o senhor doutor, e encetam uma pequena conversa. O detective dá-lhes um assobio reprovador, mas a menina ruiva acha que só ela é que repara.
Dizem que a viúva matou o marido, mas a menina ruiva acha que não – afinal, os jornais são rápidos em cair em cima das pessoas que se vestem bem e aparecem nas páginas do high-life. A menina ruiva tem sonhos desses – ou talvez de ser astronauta, ou química, como a Marie Curie (a menina ruiva tem uma fotografia dela na carteira, recortada de uma revista da universidade).
A noite começa tarde no Bar às Riscas Pretas, e quando acaba já não é bem noite, de qualquer forma. O homem do bar anuncia a última rodada, mas ninguém a comenta. As sombras sorriem-lhe dos cantos, prometem que um dia se vão voltar a ouvir os saxofones, que as noites vão voltar a ser azul-escuras, manchadas de luz.
A viúva e o senhor doutor saem juntos – o detective toma nota mental do assunto, prevendo já um fim sangrento para o senhor doutor, numa noite quente de Maio.
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Música: "Summertime", Billie Holiday.
domingo, 29 de março de 2009
Retrato de um Noir, Médico&Vigário
O senhor doutor não pagou a renda este mês.
Ainda assim, bebe. É o remédio que lhe ensinaram as décadas, o conhaque, independentemente da faculdade de medicina. E, quando entrara, de olhos brilhantes a querer salvar o mundo, não o teria feito se soubesse. Se soubesse.
Deita aos olhos à viúva, que está um bocado esbugalhada. Talvez esteja a ter um enfarte. O senhor doutor não se levanta.
O vigário fica de pé junto ao balcão, porque ele gosta de se convencer que nunca pára muito tempo. Pede uma cerveja, que ele é um homem simples, um homem de deus, um homem sem prazeres. Nasceu no Kansas, onde o céu é azul e as pessoas mastigam a ponta das espigas. Aqui nunca parece haver cor – e toda a gente tem aquele maldito hálito a tabaco.
O vigário tenta esconder o sotaque quando fala com as pessoas, para que o levem mais a sério. Tem os seus segredos, mas não deixa que se saiba, para se poder esconder. Não sabe como é não ser perseguido, e não ouvir todos os dias as histórias horríveis do seu rebanho, por detrás da rede de madeira do confessionário. Reconhece sempre as vozes por detrás das palavras mais negras.
Vê o detective e estremece. Se ele soubesse tudo o que o vigário sabe, quiçá deixasse o seu emprego. O vigário, por sua vez, bebe para lhe passar. Que outro remédio conhece? Até o senhor doutor aprova, erguendo-lhe o copo de conhaque. O vigário cora, e murmura que não vai parar muito tempo.
O senhor doutor sabe que o vigário gosta de se convencer que nunca pára muito tempo.
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Música: "Paper Bag", Goldfrapp
domingo, 22 de março de 2009
Retrato de um Noir
" A noite começa tarde no Bar às Riscas Pretas, no beco encalhado mais duvidoso de uma parte já bastante duvidosa da cidade. O ambiente no interior é avermelhado e enevoado, cheio do fumo dos cigarros e charutos nas mãos de todos os presentes. Nas paredes cobertas de traves de madeira estão retratos a tinta de saxofonistas dedicados e dançarinas delicadas dos Loucos Anos Vinte – para deixar um pouco de fantasia no Bar às Riscas Pretas, mesmo durante a Depressão.
O homem do bar está inclinado por cima do balcão, a limpar um copo com um pano que noutra vida talvez tenha sido branco. Tem manchas de licores no avental atado por cima da barriga, e metia conversa ocasional com uma das caras fantasmagóricas penduradas aos seus copos de bebidas ambíguas.
Tudo era como que a preto e branco. Durante a Proibição, o Bar às Riscas Pretas estivera sempre cheio de vida. Vendia licor e whisky (muito aguado), a mulheres vestidas de cores sumptuosas, rapazes de colete preto e lenço vermelho ao pescoço, com música a toda a hora e danças até ao raiar do dia. O homem do bar lembra-se desse tempo, mas já são noções idealizadas de risos e de sonhos. Diante dos seus olhos passam sombras – são novas sempre, e misturam-se as caras, já, no tremelicar febril das lâmpadas velhas.
Agora, o bar pertence aos vagabundos. Aos desperados da sociedade, de mãos calejadas e gargantas roucas, que fumam os seus cigarros e bebem para esquecer que bebem. O homem do bar não vê essas pessoas – vê antes os antigos, encostados ao gramofone, a passar o jornal de mão em mão entre risos e copos de vinho branco.
(...)
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Para o meu pai, que gosta das histórias com morcegos na capa.
Música: "Blues for Dixie", the Chieftains
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
A Teoria do Caos
tu és uma tempestade.
a tua luz breve e desenfreada
é seguida do rugido glorioso.
os pardais espalham-se pelo
céu noctuno,
pedaços recortados à escuridão.
por detrás dos meus olhos
--no mundo dos contrários,
condensação das lembranças--
os teus beijos são
no meu ombro.
as ondas atentam
em interminável onomatopeia
contra a praia vazia.
por detrás dos meus olhos
onde nada me alcança
tu tocas-me.
pestanas no meu rosto
(no ruge-ruge de uma porta
oleada);
mão na minha perna
(relâmpago--trovão);
unhas nas minhas costas
(a teoria do caos).
quando as borboletas batem as asas
acontecem coisas como
nós.
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para o carlitos, (os heróis fazem-se assim), num dia como os outros (e vai daí...)
Canção -- "Lloyd, I'm Ready to Be Heartbroken," Camera Obscura