quinta-feira, 7 de maio de 2009

Nero

arde,
o teu fumo enche-me as narinas
faz-me sentir vivo--
quase como se eu estivesse
mesmo.


uma vez eu vi um pássaro
cair em chamas
do meio de uma tempestade.

nada mais belo desde aí.

fico em silêncio junto às janelas
à espera da pilhagem,
da calamidade que venha fazer
cair toda esta história e
livros-escravos-mãos-recordações
em cinzas azuis na noite.

uma vez eu vi um vulcão
extinto e distinto no horizonte
(mas era mentira, e se eu soubesse
tinha ficado para ver)

os imperadores viram bem crescer
um império debaixo das sandálias
--gerações e gerações de ensinamentos
de línguas estrangeiras e modas e moedas
e emoções e romances com mulheres
de pele escura e de outros
mais exóticos continentes--
e eu sei ver agora tudo isso
desmoronar-se aos meus pés
em menos de quinze segundos.

e tudo aquilo de que preciso
é uma
faísca.

--
Reza a lenda que o Imperador Nero tocou cítara enquanto Roma ardia, após lhe ter ateado fogo.
Não é perturbadoramente belo?

Música: "Dear Darkness", PJ Harvey

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ce Soir J'Attends

Se lhe pedissem, Madeleine saberia enumerar os comboios em que já tinha entrado e saído para chegar ao sítio onde estava – num dia bom. Num dia mau, saía do comboio, sentava-se na borda de um banco da estação e deixava-se estar a ver passar os destinos intermináveis e todas as vidas diferentes que perdia.
Madeleine era uma rapariga de ambições – mas não tinha sido, na sua vida, uma rapariga de riscos, e as duas são necessárias uma à outra. Enquanto que uma vida de risco sem ambição é um pouco uma fantasia suicida, a ambição sem o risco tem outro nome: sonhar acordado.
Toda a vida, Madeleine tivera o cabelo muito comprido e liso. Não era porque lhe ficasse particularmente bem, não era uma preferência pessoal, mas era aquilo que ela conhecia, tal como comia sempre o mesmo sabor de gelado e só ia ver filmes ao cinema se tivessem actores de que ela gostasse. Tinha medo da desilusão como os lobos têm medo ao fogo – ela já vira o terror que causava nos outros, e preferia não lhe dar a oportunidade de a queimar a ela.
Jean-Luc sabia estas coisas acerca dela, e era por isso que trazia sempre para casa a mesma pizza, que lhe comprava sempre lilazes e que a levava sempre a jantar fora no “Eugéne”. Ele sabia aquilo de que ela gostava, e mantinha-se fiel a esses parâmetros de todas as vezes.
Quando acabou o liceu, Madeleine espalhou na cama os papéis de todas as universidades e cursos que lhe interessavam: Belas Artes em Paris, Paleontologia em Bordeaux, Química em Marseille. Cada papel era um sonho, uma vida diferente para Madeleine. Tudo isso a fascinava e assustava.
Nos dias antes de matrícula, andou como alma penada pela casa, a arrumar e a pensar, longos cabelos apertados num elástico. Ora se via a pintar nas margens do Seine, com uma vida simples numas águas-furtadas (e oh! usaria chapéus coloridos e talvez aprendesse a tocar acordeão, para cantar num bar escuro às terças-feiras por dinheiro nenhum), ora a dar uma palestra na universidade, e voltar para uma grande casa suburbana (é o Jean-Luc na varanda?, ou será um jovem escritor chamado Vincent, que publicou romances negros, e Madeleine faz escalada, canoagem, tem quatro golden retrievers—não, dois gatos—não, um filho, pequeno, louro como o Vincent).
Após muita deliberação, Madeleine foi cabisbaixa à escola inscrever-se no politécnico da sua vila. Era onde ia ficar o Jean-Luc – ele queria ser mecânico e ficar com a oficina do pai no centre-ville. Eram os sonhos dele, e Madeleine conseguia ver-se neles, um reflexo esfumado e distorcido de quem era, mas ela sabia que se podia habituar (e via uma casinha com duas varandas, férias modestas com praia e um par de aventais pendurados atrás da porta da cozinha).
O seu primo Gaspard foi quem a lançou num girar de pião de que ela não saberia voltar a parar. Veio da Inglaterra com ideias loucas que desmoronavam as fundações de Madeleine, de sítios para além da realidade fechada a que ela se confinara, de oportunidades que estava a perder. “Enquanto não decides entre as tuas possibilidades,” dizia-lhe ele, “pensas que tens possibilidades infinitas, mas, na verdade, não tens nenhumas. Cada dia que ficas no politécnico estás a deitar mais pela janela.”
Um pouco engasgada, Madeleine começou: “Mas o Jean-Luc—”
Gaspard disse-lhe que Jean-Luc não a merecia. Madeleine não concordava.
Nessa noite, Jean-Luc levou Madeleine pela mão através do cheiro familiar de uma rua húmida depois da chuva, para irem ao cinema. Mas no escuro, com o nariz de Jean-Luc suavemente pousado no seu cabelo e ouvindo os seus sussurros de amor, o rosto de Madeleine estava rígido e inexpressivo, olhos bem abertos, fixos no ecrã, a ver tomar lugar aventuras que temia nunca viver.
Agora, sentada na paragem junto aos comboios que passavam, a ver andar pessoas em pares e sentindo o frio da noite começar a envolvê-la, Madeleine sonhava com o calor do cinema e das mãos desajeitadas de Jean-Luc.
A despedida fora amarga e sem sentido. Lembrava-se bem dos olhos castanhos de Jean-Luc, confusos e traídos, enquanto Madeleine andava de um lado para o outro no quarto a atirar as suas coisas para uma mala grande e vermelha. Ela falava-lhe do que dissera o Gaspard, distraída e sonhadora, de como ia ver Paris e Biarritz e Zurich – ia perder os sapatos em Vienna e fazer amigos a tentar encontrá-los. Entretanto, Jean-Luc olhava-a de longe, como se pela primeira vez a visse, encostado à parede com as mãos nos bolsos.
Quando ele saiu, Madeleine viu-o limpar o rosto ao pano cansado, manchado de óleo que trazia no bolso. As suas lágrimas, ele sempre as escondera atrás de determinação e de tijoleira quebradiça.
O seu único sinal de emoção foi, assim que chegou ao lado de fora da porta e sabia que Madeleine não o via, uma violenta pancada na parede. Madeleine realmente não o via, mas ouviu-o. Acabou de fazer a mala com um semblante paciente, e os sonhos que tinha para a viagem afastaram-lhe o nó na garganta – eram as mãos de um velho marinheiro a desapertar as amarras do seu navio.
Quando acabou de arrumar os livros, os jeans e os sapatos vermelhos que nunca usava, Madeleine ficou em pé à frente do espelho da casa-de-banho com uma tesoura, e viu a pouco e pouco cair as suas madeixas castanhas no lavatório.
À janela do comboio para sair da vila, Madeleine pensou ter vislumbrado Jean-Luc, um ramo de lilazes na mão ligada, a entrar esbaforido na estação, antes de ser afogado pelo apito do comboio e pela multidão. Convenceu-se de que não era mesmo ele, para que não lhe doa à noite.
Madeleine viu Paris das janelas de autocarros – sentiu o vento no seu cabelo no cimo da butte de Montmartre, comprou dois ou três quadros na Place du Tertre, tirou fotografias com um sorriso plastificado diante da Torre Eiffel. De tédio, alimentou os pombos dos Champs de Mars com bocadinhos de pizza.
Tudo aquilo de que o Gaspard tinha falado? Existia, Madeleine via-o nas pessoas à sua volta, e às vezes sentia-o mesmo perto de si, sem poder vê-lo em si mesma. Mas afinal, em Vienna perdera inadvertidamente o sapato, e acabara a coxear de volta para o hotel, a pensar nas batatas fritas do “Eugéne” e na sua própria estupidez.
Madeleine sentava-se na estação a ver passar os comboios um a um, às vezes a apitar. Já estava quase sem dinheiro, e às vezes esquecia-se de onde estava. Tinha, porém, vergonha de voltar para casa (sempre que ressoava nos altifalantes o nome da sua terra, era vê-la estremecer e fingir que não ouvira) sem ter visto o que prometera ver, sem ter beijado nenhum poeta e sem se ter perdido em becos de calçada molhada, às mãos do inesperado.
Para acrescentar à humilhação, tinha medo – medo de enfrentar as consequências dos riscos que tinha tomado. Estava já consumida pela desilusão, mas sabia que não o estava tanto quanto ficaria se voltasse, para encontrar Jean-Luc nos braços de uma ruiva fogosa chamada Vanessa, numa casa com duas varandas que era propriedade legítima de Madeleine.
Agora essa sua fantasia – Jean-Luc e um filme, noites passadas a contar estrelas e a conversar, no familiar parque da vila – fazia parte de mais uma batelada de riscos.
Riscos que Madeleine não ia tomar.

--
Baseado na canção "Madeleine", de Jacques Brel, que conta a história de um rapaz que todos os dias espera a namorada na estação com um ramo de lilazes, sem ela nunca chegar.
Elle est tellement jolie
Elle est tellement tout ça
Elle est toute ma vie
Madeleine... qui n'arrive pas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

nós os artistas II

nós os artistas sentimos com mais força
do que as outras pessoas sentem

nós os artistas queremos a liberdade
com mais força do que os outros, mais

nós os artistas gritamos mais alto
ou então sussurramos palavras de ordem
escondidas atrás dos pilares das eras
até à hora de brilharem além, porém, e
com mais força do que os outros, mais

nós os artistas não somos românticos
nem graciosos nem delicados
nem o nosso perfil é de cinzel
nem os nossos olhos pedras
( semi-preciosas metafórico-voltaicas )

o nosso silêncio é apenas aparente
nós os artistas não sabemos fechar a boca

sem ar respiramos pelos olhos quando
nos sufocam em desespero porque
o artista é LIVRE e INSPIRADO
e a sociedade PRESA e INVEJOSA

OS NOSSOS OLHOS SÃO GRANDES
AS NOSSAS MÃOS SÃO ABERTAS
OS NOSSOS PÉS CALEJADOS

o sol é dos artistas porque só eles
sabem para que é que ele serve


--
Poema velho redescoberto, com um sujeito poético revoltadíssimo.
Devia estar a ter um daqueles dias difíceis.

esquecido no tempo a 05-04-2008

Música: "Kashmere", Led Zeppelin

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Jai Ho

Post repetida, já que da anterior teve o seu vídeo retirado do YouTube pela Fox Searchlight (infracção de copyright my ass, é mais publicidade grátis).

Celebrando os incríveis dotes do Dev Patel e da Freida Pinto nos créditos do Slumdog Millionaire, com música de A. Rahman.
Não sei quantos mil óscares*, entre eles o de "Melhor Canção Original".

You gotta love it.

*8, mesmo.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Retrato de um Noir, Ruiva&Finale

A menina ruiva veste-se sempre de vermelho, por muito que lhe digam que essa cor é para as mulheres da vida. Ela senta-se numa mesa redonda, sozinha, a olhar para o seu reflexo no cinzeiro. Ninguém no bar a conhece muito bem, e a empregada de mesa resmunga para o homem do bar que ela não deixa grandes gorjetas. É estudante, bebe sempre água com gás.
A menina ruiva espia a viúva enquanto ela se vai sentar com o senhor doutor, e encetam uma pequena conversa. O detective dá-lhes um assobio reprovador, mas a menina ruiva acha que só ela é que repara.
Dizem que a viúva matou o marido, mas a menina ruiva acha que não – afinal, os jornais são rápidos em cair em cima das pessoas que se vestem bem e aparecem nas páginas do high-life. A menina ruiva tem sonhos desses – ou talvez de ser astronauta, ou química, como a Marie Curie (a menina ruiva tem uma fotografia dela na carteira, recortada de uma revista da universidade).
A noite começa tarde no Bar às Riscas Pretas, e quando acaba já não é bem noite, de qualquer forma. O homem do bar anuncia a última rodada, mas ninguém a comenta. As sombras sorriem-lhe dos cantos, prometem que um dia se vão voltar a ouvir os saxofones, que as noites vão voltar a ser azul-escuras, manchadas de luz.
A viúva e o senhor doutor saem juntos – o detective toma nota mental do assunto, prevendo já um fim sangrento para o senhor doutor, numa noite quente de Maio.


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Música: "Summertime", Billie Holiday.

domingo, 29 de março de 2009

Retrato de um Noir, Médico&Vigário

O senhor doutor está sentado a uma mesa, a fumar um cachimbo, pensativo e sem falar com ninguém, excepto a empregada de mesa, que passa de vez em quando, com o decote escabroso e os saltos altos, a perguntar se ele precisa de outro conhaque. O senhor doutor tem o consultório instalado no cimo de um prédio de tijolo castanho no centro da cidade. O homem do bar passa lá para os filhos levarem as vacinas – o senhor doutor faz um desconto. O homem da mercearia vai lá comprar os comprimidos da tensão da esposa – o senhor doutor faz um desconto. O carteiro leva o cão porque o veterinário está fechado – o senhor doutor não cobra nada.
O senhor doutor não pagou a renda este mês.
Ainda assim, bebe. É o remédio que lhe ensinaram as décadas, o conhaque, independentemente da faculdade de medicina. E, quando entrara, de olhos brilhantes a querer salvar o mundo, não o teria feito se soubesse. Se soubesse.
Deita aos olhos à viúva, que está um bocado esbugalhada. Talvez esteja a ter um enfarte. O senhor doutor não se levanta.
O vigário fica de pé junto ao balcão, porque ele gosta de se convencer que nunca pára muito tempo. Pede uma cerveja, que ele é um homem simples, um homem de deus, um homem sem prazeres. Nasceu no Kansas, onde o céu é azul e as pessoas mastigam a ponta das espigas. Aqui nunca parece haver cor – e toda a gente tem aquele maldito hálito a tabaco.
O vigário tenta esconder o sotaque quando fala com as pessoas, para que o levem mais a sério. Tem os seus segredos, mas não deixa que se saiba, para se poder esconder. Não sabe como é não ser perseguido, e não ouvir todos os dias as histórias horríveis do seu rebanho, por detrás da rede de madeira do confessionário. Reconhece sempre as vozes por detrás das palavras mais negras.
Vê o detective e estremece. Se ele soubesse tudo o que o vigário sabe, quiçá deixasse o seu emprego. O vigário, por sua vez, bebe para lhe passar. Que outro remédio conhece? Até o senhor doutor aprova, erguendo-lhe o copo de conhaque. O vigário cora, e murmura que não vai parar muito tempo.
O senhor doutor sabe que o vigário gosta de se convencer que nunca pára muito tempo.

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Música: "Paper Bag", Goldfrapp

domingo, 22 de março de 2009

That's Amore




When the moon hits your eyes like a big pizza pie
that's amore,
When the world seems to shine like you've had too much wine
that's amore!

Novo vício: "Skins", série britânica.
O Anwar (Dev Patel) e a Sketch (Aimee-Ffion Edwards) saem, com resultados extraordinários.
Side note: a Sketch está loucamente apaixonada pelo melhor amigo do Anwar, que é gay.

Ao menos deixei de ver Anatomia de Grey.