domingo, 22 de março de 2009
That's Amore
When the moon hits your eyes like a big pizza pie
that's amore,
When the world seems to shine like you've had too much wine
that's amore!
Novo vício: "Skins", série britânica.
O Anwar (Dev Patel) e a Sketch (Aimee-Ffion Edwards) saem, com resultados extraordinários.
Side note: a Sketch está loucamente apaixonada pelo melhor amigo do Anwar, que é gay.
Ao menos deixei de ver Anatomia de Grey.
Retrato de um Noir, Detective&Viúva
Ele vive um pouco na linha – alimenta-se dos cantos mais esbatidos das leis, deixa passar o que não o magoa e cerra os dentes quando lhe apontam os seus defeitos.
O revólver? Está enfiado no cinto, para que todos o vejam e saibam que ele não é de brincadeiras.
A viúva está sentada ao balcão, de vestido preto com uma racha escandalosa de lado e perna cruzada. Ninguém sabe exactamente o que ela faz no Bar às Riscas Pretas – afinal, ela pertence às festas no uptown, de copinhos afunilados e conversas frívolas. Fala-se que matou o marido, mas ela não liga a esses mexericos, brinca antes com as pérolas do colar e faz olhinhos ao senhor doutor.
O detective olha-a de relance. Já tiveram os seus encontros – foram fugazes. As manchas de sangue encontradas na sua roupa não eram certamente do marido, que fora alvejado por uma mulher que usava batom vermelho, que não era certamente o mesmo que pendia dos seus lábios. Quem se atreve a contestar, de qualquer forma, o detective?
Ninguém, senhor, ninguém.
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Música: "America", Razorlight
Retrato de um Noir
" A noite começa tarde no Bar às Riscas Pretas, no beco encalhado mais duvidoso de uma parte já bastante duvidosa da cidade. O ambiente no interior é avermelhado e enevoado, cheio do fumo dos cigarros e charutos nas mãos de todos os presentes. Nas paredes cobertas de traves de madeira estão retratos a tinta de saxofonistas dedicados e dançarinas delicadas dos Loucos Anos Vinte – para deixar um pouco de fantasia no Bar às Riscas Pretas, mesmo durante a Depressão.
O homem do bar está inclinado por cima do balcão, a limpar um copo com um pano que noutra vida talvez tenha sido branco. Tem manchas de licores no avental atado por cima da barriga, e metia conversa ocasional com uma das caras fantasmagóricas penduradas aos seus copos de bebidas ambíguas.
Tudo era como que a preto e branco. Durante a Proibição, o Bar às Riscas Pretas estivera sempre cheio de vida. Vendia licor e whisky (muito aguado), a mulheres vestidas de cores sumptuosas, rapazes de colete preto e lenço vermelho ao pescoço, com música a toda a hora e danças até ao raiar do dia. O homem do bar lembra-se desse tempo, mas já são noções idealizadas de risos e de sonhos. Diante dos seus olhos passam sombras – são novas sempre, e misturam-se as caras, já, no tremelicar febril das lâmpadas velhas.
Agora, o bar pertence aos vagabundos. Aos desperados da sociedade, de mãos calejadas e gargantas roucas, que fumam os seus cigarros e bebem para esquecer que bebem. O homem do bar não vê essas pessoas – vê antes os antigos, encostados ao gramofone, a passar o jornal de mão em mão entre risos e copos de vinho branco.
(...)
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Para o meu pai, que gosta das histórias com morcegos na capa.
Música: "Blues for Dixie", the Chieftains
segunda-feira, 9 de março de 2009
emportée par la foule
passam borboletas na minha
visão periférica.
ainda somos deuses
-sabe deus por quanto tempo
essa brincadeira vai durar-
com as oportunidades
do céu azul na palma da mão.
às vezes estou sozinha como
a solitária senhora parisiense
na linha do céu nova iorquino:
presa tão longe de casa,
numa antítese ao seu apelido.
abrem-se-me os olhos
com as ventanias.
são as janelas de uma casa
mais antiga do que eu,
com as portadas amarelas.
os aviões quando voam
não batem as asas.
são de outro estado de
existência - podem voar
por pura força de vontade.
quando ouço a nossa canção
os meus dias são diferentes.
vejo os teus olhos (de súbito)
como se os visse do fundo
do poço das lembranças.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Für Elise
(...)
Deixou que os pés descalços passeassem sozinhos, que os dedos dos pés formassem um romance qualquer com as conchas de que ele nunca iria ouvir falar e que seria escrito pela Sophia de Mello Breyner numa outra vida, quiçá em dois dísticos e uma quadra.
O vento suspirava canções de amor für Elise, as gaivotas soltavam gritos existencialistas que Miguel tentava não ouvir. Enterrou as mãos nos bolsos. Bem fundo, como se enterra no quintal um animal de estimação. Desesperadamente, miseravelmente, com a consciência de que se põe fim a algo.
Miguel queria pôr fim.(...)
A Teoria do Caos
tu és uma tempestade.
a tua luz breve e desenfreada
é seguida do rugido glorioso.
os pardais espalham-se pelo
céu noctuno,
pedaços recortados à escuridão.
por detrás dos meus olhos
--no mundo dos contrários,
condensação das lembranças--
os teus beijos são
no meu ombro.
as ondas atentam
em interminável onomatopeia
contra a praia vazia.
por detrás dos meus olhos
onde nada me alcança
tu tocas-me.
pestanas no meu rosto
(no ruge-ruge de uma porta
oleada);
mão na minha perna
(relâmpago--trovão);
unhas nas minhas costas
(a teoria do caos).
quando as borboletas batem as asas
acontecem coisas como
nós.
--
para o carlitos, (os heróis fazem-se assim), num dia como os outros (e vai daí...)
Canção -- "Lloyd, I'm Ready to Be Heartbroken," Camera Obscura